Pesquisa
Teatro Ribeiragrandense

Antecedentes culturais

A construção do Teatro ribeiragrandense não veio dar início a algo que faltasse à então Vila da Ribeira Grande. Veio, isso sim, começar a concentrar e até intensificar o que até ali se encontrava disperso e restrito.

Muito em redor do início da sua construção [1920], a Vila ribeiragrandense usufruía de espaços, os quais, apesar de não vocacionados para implementarem um alargado nível de vida cultural, bem substituíam, diga-se que na sua intenção, uma verdadeira casa teatral e até cinematográfica. O Recreatório, o Largo Gaspar Frutuoso e o Salão dos Bombeiros, transformados, adaptados, ou até mesmo preparados regularmente para locais de exibição de récitas, de concertos musicais e de filmes, iam dando conta da pouca, ou até da muita, realidade cultural que pela Vila do Norte da Ilha de São Miguel florescia.

Teatro


Construção

Em Março de 1919, o jornal Ecos do Norte anuncia que o Salão-Teatro, ‘Iniciativa feliz d’um grupo de rapazes, encontrou, como era de esperar, o mais decidido apoio’. Seis meses volvidos é constituída a denominada ‘Empresa do Teatro Ribeira Grandense’, ‘[...] sociedade [que] tem por fim a exploração por conta própria ou por meio de arrendamento [de] quaesquer actidades [sic] do teatro Ribeira-Grandense que se projecta construir na rua Cinco de Outubro [...] [da vila da Ribeira Grande] -’. Através dos seus Estatutos, foram nomeados para o biénio de 1919 e 1920, os seguintes Directores: ’- Efectivos - Doutor Manuel Teles Pinto de Leão - Aristides Soares Gamboa - e Ezequiel Moreira da Silva - Substitutos - Manuel Inacio Lopes, Faustino Teixeira de Lima e Calisto de Oliveira Rocha’.

O início da construção do Salão-Teatro poderá, perfeitamente, situar-se, logo no ano de 1920. Vários factos bem o podem atestar, nomeadamente, em Setembro de 1921, numa entrevista conjunta concedida por Ezequiel Moreira da Silva e Rego Lima [autor do projecto] ao Diário dos Açores lê-se que ’No 1.º de março de 1920 começou-se a demolição da antiga Torre das Freiras [ex-Mosteiro de Jesus] que foi adquirida para, com a pedra dela, auxiliar a construção [do Teatro]. Essa foi uma das melhores aquisições pois que nos custou apenas 500 mil reis. Depois da demolição, a abertura dos alicerces e, em 1 de junho, iniciava-se as fundações’.


Abertura

Muito antes da sua apoteótica inauguração, o Salão-Teatro já se encontrava em actividade.

Um jornalista do Diário dos Açores, em Setembro de 1921, depois de escrever que o Teatro que ‘se está a construir’ é um edifício que ‘vem preencher uma grande lacuna que ha muito se sentia na Ribeira-grande’, coloca a seguinte questão: ‘Quando será a abertura do Teatro inquirimos de passagem de [sic] um amigo?’ Eis a resposta: ‘Para outubro de 1922, mas já em novembro próximo, contamos dar ali a exibição do films [sic]’.

Todavia, em Março de 1922, aquele diário noticia que ‘No dia de entrudo toda a Vila se sentiu animada com os folguedos proprios da epoca e à tarde, na rua direita deu-se uma bem organisada batalha de flores, que esteve animadissima./ No Teatro, à noite, encontrando-se ali o que de mais elegante e distinto ha na sociedade Ribeira-grandense, jogou-se o carnaval com extraordinária animação e brilho [...]./ É de notar que este ano é o primeiro em que nesta importante Vila se jogou o carnaval no Teatro, no famoso Teatro cuja construção se está activamente completando’.

Teatro

No ano de 1925, o mesmo Diário publica a seguinte notícia: E esperada nesta Vila no próximo sabado a companhia d’opereta Lourdes Cabral que vem dar um espétaculo no teatro. Consta-nos que a peça será a linda opereta ’Viuva Negra’’.

Em 1928, a julgar pelo Espólio da Esplanada Peixoto, por lá passou a fita ‘Christus [A Tragedia do Golgotha]’.

No mesmo jornal, mas para inícios do ano de 1930, podemos constatar esta notícia: ‘Têm continuado a ser exibidos [no Teatro Ribeira-Grandense] magnificos films [sic], estando anunciada para breve a exibição do grandioso film [sic]‘A Vida de Cristo’’. Já em finais de 1930, o Teatro da Ribeira Grande é ’Transformado em Circo Equestre para apresentação em Estreia Da Grande Companhia Internacional de Circo Equestre America Show’.


Inauguração

Inícios de Janeiro do ano de 1933. Uma outra empresa, a ‘Sociedade Teatral Ribeiragrandense’, inaugura o sonho daquele ’grupo de rapazes’ ou, como lhe chamou um orador da sessão solene inaugural, daquela ‘pleiade de Homens de Inteligência, de Vontade e de Fé’. Na escritura da sua constituição exarou-se que ‘o seu objecto é a exploração de quaesquer espectaculos publicos, por conta propria, ou por adjudicação ou delegação, quer pelo cinematografo, quer pelo teatro de declamação, revistas de costumes, exibições coreograficas, quer ainda por consertos [sic] musicaes, festas d’arte ou desportivas, Fendentes [sic], ao desenvolvimento moral, intelectual e educativo dos habitantes d’este concelho’. Por essa escritura foram ‘nomeados para a gerência durante o primeiro bienio os seguintes socios: - Efectivos Doutor Virginio Cabral de Lima, Doutor Agostinho de Sá Vieira e Manuel Inacio Lopes; e Substitutos - Alberto Ferreira Moniz, Amadeu Frias Coutinho e Luiz da Mota Faria’.

No final do ano da sua inauguração, como se pode inferir do jornal a Razão, de 16 de Novembro, o Salão-Teatro ainda não possuía ‘cinema sonoro’.

Da década de trinta, inclusive, até ao ano de 1988, sob arrendamento, o Teatro ribeiragrandense promoveu a exibição de espectáculos teatrais, musicais e de filmes.

Em Maio de 1940 o Teatro exibe o filme ‘A Aldeia da Roupa Branca’, com a memorável Beatriz Costa. Em meados de quarenta, promove uma festa de Fim de Ano, à Matinée e Soirée, com Cinema, Fados e Canções.

A revista A Nossa Terra, ‘aguardada com o maior interesse’, como noticia o Diário dos Açores, de 30-01-1951, nele teve cinco exibições no espaço de quase um mês [‘As saias das raparigas/Fazem balão pelo ar.../Que os rapazes pela rua,/Param só p’ra aperciar [sic] ...’].

Ventura Rodrigues Pereira, em 1988, num saudosismo penetrante, recorda no Jornal Ecos do Norte ‘[...] as grandes enchentes do Teatro: a primeira vez que ali se passou o filme N. Senhora de Fátima; O Feiticeiro d’Oz; o de S. Francisco de Assis; o de S. Vicente de Paulo e alguns mais, sem esquecer - Quando o mar galgou a Terra [anos de 1954-55], que bateu o récord em repetições intercaladas’.

No início da década de sessenta do século XX, o Teatro ribeiragrandense continua a atrair ’numeroso público’ para os seus bailes de Carnaval, escreve um articulista no jornal Ecos do Norte, de Fevereiro de 1987.

Na década de setenta, por ele passou a Revista Açorianíssima.

No ano de 1986, o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrik, uma visão extrema da violência urbana, passou no seu ecran.

Simples exemplos dos múltiplos espectáculos que pelo Salão-Teatro iam sendo exibidos.

Depois de peripécias várias, nomeadamente aquelas em redor da sua degradação, em 1988, o Salão-Teatro é adquirido pela Autarquia ribeiragrandense.


Pensar a função do Salão-Teatro

No mês de Novembro de 1988, a Câmara Municipal de Ribeira Grande solicita a um conjunto de ‘ideólogos’ [entidades públicas, privadas e particulares] pareceres para a transformação do recém adquirido imóvel, os quais, na sua essência, foram a antecâmara preparatória do edifício e do espírito do futuro Centro Cultural. Um deles, o do Director da Casa da Cultura de Ribeira Grande, sugeriu que’[...] O Teatro deveria ser o ‘Forum Cultural’, um espaço de dinamização/animação cultural que, a par e passo com o Museu e Biblioteca e Arquivo Municipal promoveria a cultura do Concelho./ Teria estruturas próprias e apoiaria e coordenaria toda a acção cultural anual do Concelho desde exposições, congressos, ciclos de teatro, cinema, etc...’.

Em 1989, o Teatro Ribeiragrandense é classificado como Imóvel de Interesse Público.

O Salão-Teatro foi renovado. No entanto, em articulação com ele, surge o Centro Cultural.


Reinauguração do Teatro e o Centro Cultural

No dia 5 Maio de 2000, a Autarquia ribeiragrandense, sendo seu Presidente Dr. António Pedro Rebelo Costa, reinaugura o Salão-Teatro.

O evento é comemorado com um demorado e diversificado programa. Pelo Salão-Teatro passaram o Grupo de Teatro Alpendre, o Festival MúsicAtlântico 2000, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Maestro António Vitorino d’Almeida, filmes [Cinema Paraíso, Beleza Americana], exposições, uma conferência sobre o seu historial.

Desde logo, o Centro Cultural aglomerou associações culturais e outras: Academia de Música, Pontilha, Clube de Informática, Delegação Regional da Associação Nacional de Jovens Jornalistas.

O complexo constituído pelo Salão-Teatro e pelo Centro Cultural, em escassos anos de actividade, tem vindo a promover conferências, congressos, cinema, teatro, música, dança, festivais, tertúlias literárias, gravações televisivas, formação profissional. O mesmo abre todos os dias.

O sonho daquele ‘grupo de rapazes’, dos inícios do século XX, reactivou-se. A cidade de Ribeira Grande passou a integrar os roteiros das cidades ditas ‘capitais de cultura’. O Presidente da Autarquia ribeiragrandense assim o relevou na Sessão de reabertura do Salão-Teatro.

[Hermano Teodoro, O Teatro Ribeiragrandense, 1920-1933-2000, 2003].

EVENTO DESTAQUEEVENTO DESTAQUE
02-02-2010
Bailes de Carnaval
Dias 13 e 15 de Fevereiro - Teatro Ribeiragrandense


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